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ARTES E FEITOS. Por Alda Paulina Borges

por alho_politicamente_incorreto, em 17.12.14

       

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          A tarde mergulha no espelho da barragem Venda Nova. A arte da natureza em desafio ao homem. O Arquiteto Álvaro Siza Vieira, se acomoda no amplo terraço perfumado de glicínias.  E sonha, desafiado pelo convite profissional que o distingue. Está na Estalagem de amigos em Padrões, Portugal. Tempo de férias no refúgio. A Serra da Cabreira acima, de granito intenso, contrastando com a paisagem plana da Barragem mansa.

       O Brasil, com tantos arquitetos de renome internacional, o envaidece pela escolha. Desafiante determinação para inusitado projeto em Porto Alegre, sul do Brasil. Antes, para criação e detalhes, necessita ver o local escolhido e as possibilidades para essa obra. Já ouvira falar no pintor Iberê Camargo, mas não no necessário conhecimento para despertar a criatividade. Passa o fim de semana em conjeturas. Necessita enfrentar a longa e imprevista viagem ao local. Dentre os objetivos, um prédio para museu das obras particulares de Iberê Camargo; este é o empenho da viúva do pintor. Portanto, um afeto que seja permanente homenagem e reconhecimento.

Seus desenhos não podem ferir as formas orgânicas do terreno escarpado. Salta o projeto: branco e linear adaptado às escarpas. Com rampas laterais iluminadas por uma clarabóia central. Poucas aberturas para não desviar atenção do espaço museológico. Porém, de quando em vez, uma parcela aberta para a paisagem, a fim de enquadrar o Guaíba a seus alcances. Lembra a sutileza das contemplações, do poeta e escritor conterrâneo Miguel Torga: deixar prolongar os horizontes até onde se extinga a cor da vida.  E, assim alinhavado, surgiu o imponente prédio, de linhas inusitadas, numa mistura de artes e feitos.

 

      Siza chega a Porto Alegre para os necessários trâmites legais e a visita ao espaço para a obra.  A caminho do local, seu olhar desliza sobre a orla. Pede silencio e observa. O manancial do Guaíba beirando a rota. Alguma coisa desperta um não sei quê. Procura a semelhança: não é a serra e a barragem, mas pedras contornando o local. Embora as águas mais turvas, uma ligação terna à sua sensibilidade.

     Seus desenhos não podem ferir as formas orgânicas do terreno escarpado. Salta o projeto: branco e linear adaptado às escarpas. Com rampas laterais iluminadas por uma clarabóia central. Poucas aberturas para não desviar atenção do espaço museológico. Porém, de quando em vez, uma parcela aberta para a paisagem, a fim de enquadrar o Guaíba a seus alcances. Lembra a sutileza das contemplações, do poeta e escritor conterrâneo Miguel Torga: deixar prolongar os horizontes até onde se extinga a cor da vida.  E, assim alinhavado, surgiu o imponente prédio, de linhas inusitadas, numa mistura de artes e feitos.

        Tratos e contratos finalizam o acerto. Entre o projeto e a realização, a lucidez completa o prédio  no enlace entre o idealizado e o uso. E, ao contemplar sua criação, Siza sente uma invasão nostálgica. Boa de sentir, intrigante na analogia. Lembra uma afirmação do escritor sul-americano Borges: quem conhecer o Sul, jamais voltará o mesmo. Sabe que sobreviverá na obra arquitetônica.

       Voltando para suas origens, na pungência do sentimento, a impossibilidade de permanecer. Suas obrigações o chamam. Porto Alegre continuará o alegre porto, onde chegou pela jornada profissional. Ao retornar as águas lá do norte do mundo, confirmarão os retoques que a vivência lhe atinge: permanecerá dividido.

Alda Paulina Borges

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